Desagregando

Ela fala sem parar e me xinga e me humilha

Chora, joga a comida no chão e diz que irá dormir

na casa da avó

Que sobrevive na outra ponta da Baixada.

Tento abraçá-la e apanho. Joelhada. Pra valer.

quase perco a virilidade e o direito a fertilidade

Seria uma longa vida sem provocações, brincadeiras, medo mensal

Seria de uma vez por todas seco, árido, ridículo.

Cubro de gelo a região. Tranco-me no banheiro

Rezo, molho o rosto e aprecio o volume da descarga.

Ela insiste; grita, esperneia, quebra a televisão

a escrivaninha, o armário, a cadeira, o aquário

Tento vomitar o orgulho e acatar a pressão,

Mas no fundo sinto que algo está errado

Sei lá, talvez o meu cabelo com pouco creme, porém

ao dedilhar os cachos, sei que estão perfeitos

sei que a minha carteira está no bolso

e o desodorante está em dia

todas contas estão pagas

a geladeira está cheia e há

novas camisinhas na gaveta.

O gato está bem cuidado

E visitei minha mãe na semana passada

Tudo me parece alinhado, sei lá, mas

algo está errado, ouço ela gemer, algo não encaixa

quem sabe seja a carne nos meus dentes ou

o comentário do vascaíno no Facebook

a bruxa que me olhou de cara feia na esquina

o carteiro atrasado se escondendo atrás da

pandemia.

“Em algum ponto ela precisa parar pra respirar”

digo a mim mesmo.

E quando finalmente aconteceu eu não tinha mais o que

responder

Pergunto-me se ainda a amo. Pergunto-me se ainda quero

Daí coloco a reunião de sexta em primeiro lugar

e a troca do gás em segundo e o último episódio da

nova série de terror

em terceiro,

Eu ainda a amo? Não sei.

“olha só, preciso de um tempo”

sussurro de pupilas oscilantes.

“não sou mulher de dar tempos!”

ela frígida revida, como uma negociante do mercado negro

Então toda graça chega ao fim junto ao barulho da descarga,

O silêncio é instaurado. A insegurança sobe do assoalho,

As lágrimas cedem o assento pra seriedade

O papo financeiro substitui as boas recordações.

O vascaíno de repente é amigo de longa data e

como num passe de mágica

aquilo que parecia estar errado

desaparece,

Levando consigo o show, a pirraça, a baderna.

Ela junta todas as coisas e se vai em meio a neblina

supostamente para a casa da avó

Que sobrevive na outra ponta da Baixada.

Pergunto-me se ainda a amo. Pergunto-me se ainda quero

Na sala, abro uma boa cerveja e palito os dentes.

Junto todos os cacos e termino o último episódio

daquela boa série de terror.

O gelo finalmente derrete, torço para ainda ser fértil.

E, pensando bem, sim, acho que a amo,

Sinto pena. Sinto tristeza. Sinto alívio. Sinto dor.

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