Operário

Minhas costas doíam, e as mãos firmavam a calejar,

É o cálice do trabalhador urbano,

Na caverna dos containers chineses que minha força se esvaia,

E na fuga da imaginação eu me perdia,

Sabia que do outro lado do mundo outro peão se movia,

Desgastado como peça no tabuleiro da produção.

E no emaranhado que gira a roda,

Carregava e descarregava como um condenado,

Empilhava e empurrava caixas de peças de moto,

Um desgraçado moído por 8 horas no auge dos 21,

Torcia, uma hora minha sorte ia mudar,

No país dos engenheiros, meu título iria vingar,

“Cidadão não, engenheiro”.

Entre a peãozada fiz muitos colegas,

Ansiosos e aflitos para a família sustentar,

Muitos eram novos e outros tinham filhos,

Alguns eram já noivos e queriam se casar.

Joguei tudo pra o ar e fui estudar,

Sem dinheiro no bolso, tentei a sorte,

O curso era diurno e a noite eu iria revisar,

Troquei seis por meia dúzia, pois

De cada 25 engineers, 2 conseguia trabalho,

O resto virava cidadão, e eu estava nessa lista,

Favelado como era, e sem um forte QI, quem indica,

Meu destino estava traçado, dessa vez desempregado, sequelado, infeliz e frustado,

Eu parei de beber e fumar, voltei a escrever, ou pelo menos tentar,

Mais uma vez planejava voltar ao galpão sombrio,

O intelectual operário flagelado,

Sarcástico, irônico e puto da vida,

Enganando…

Pela propaganda …

do país dos diplomados…

3 comentários em “Operário

Adicione o seu

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Escreva um blog: WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: