Quinzena negra

Vi um gafanhoto moscando no vidro da minha janela. Vi também quando um corvo enorme e ousado chegou e partiu o inseto em dois, levando-o para longe dali. Não tenho ideia do que o universo quis dizer com aquilo, mas foi a primeira visão do dia e, normalmente, a gente respeita as primeiras impressões do dia. O corvo mora no meu telhado há alguns meses e tenho preguiça de espantá-lo. Ao menos ele mata os insetos das redondezas, o que mantém meu aerossol de inseticida sempre cheio. A questão é que depois daquilo eu decidi levantar. Peguei minha sunga no chão e vesti, caminhei pelo quarto até o banheiro e olhei minha cara amassada no espelho. Horrível. Simplesmente horrível. Achei um elástico e amarrei o cabelo, tomei um banho e escovei os dentes, desci para a cozinha e fiz um bom café. Jennifer acordou poucos minutos depois e desceu as escadas com o celular na mão. Deu comida ao Rubens (nosso gato) e sentou-se ao meu lado na mesa. “Bom dia, amor”, disse-me. Respondi e enchi a xícara dela.

— O que foi isso na sua perna? — Ela me perguntou.

De fato havia uma vermelhidão. Como se tivesse levado um soco bem dado na parte interna da coxa, quase alcançando a virilha. Eu apertei. Doía conforme a pele era comprimida. Uma dor aguda. Chata.

— Caralho. Não tenho a mínima ideia do que foi. Deve ter sido ontem à noite — Respondi.

— Nem vem! Eu nem toquei aí, hein! — retrucou.

— Ah, tocou, mulher. E como tocou. Teve até uma hora que eu…

— Cala a boca! Passe uma pomada nisso antes que piore — interrompeu Jennifer — agora me dê o pacote de biscoitos, por favor.

Ela é uma boa garota, mas a quarentena está acabando com sua cabeça. Além da recente mania de limpeza e o papo esquisito sobre xamanismo africano com magia negra, a violência dos atos sexuais também assusta. Ontem ela saiu de um transe meditativo e simplesmente me agarrou, enquanto eu arrumava a cama. O resultado não foi só na perna; omiti a informação sobre as dores absurdas na costela. Eu não sei o que ela invoca ou incorpora. Sei que a voz fica mais grave, os olhos ficam vermelhos, ela me engole — em parte, literalmente — e no fim não se lembra de nada. Hoje é a décima quarta vez que esse filme se repete. Eu tinha duas opções: passar o pacote de biscoitos e continuar “usufruindo” de tudo isso normalmente ou, finalmente, tocar no assunto e ver o que poderia rolar.

— Jenni. Amor. Preciso te contar uma coisa — disse.

— O que foi?

— Tá rolando uma parada bizarra. Já tem alguns dias nisso e… sabe… eu fiquei enrolando porque em parte é muito gostoso e tudo mais, só que…

— Baby?

— Sim?

— Os biscoitos!

— Claro, claro — dei a ela o pacote.

— O que é? Pode falar.

— Bem, como eu estava dizendo, desde que você começou com esses últimos rituais, umas paradas estranhas começaram a acontecer.

— Se tá falando do Rubens, eu já te disse: é temporário. Gatos são animais sensíveis. Ele nota a mudança nas vibrações do ambiente e se afasta. Logo ele se acostuma — disse-me.

— Não. Benzinho. Não tem nada a ver com o gato. É com você mesmo.

— Como é?

— Cara, quando você começa com aquele rito das 23hrs, algumas coisas loucas acontecem. Não com o Rubens. Não com a casa. Nem com o ambiente. Nem com as vibrações. Mas com você. Tu simplesmente arranca a roupa e voa em mim como uma leoa no cio! A gente começa a fazer amor e, por algum razão bem esquisita, eu pego um pouco dessa vibe e rendo mil vezes mais que o natural. Gozamos trezentas vezes, eu fico destruído no outro dia e você acorda ótima. Apenas não se lembra de nada.

Jennifer se engasgou e cuspiu o café. Começou a rir sem parar;

— Puta que pariu, cara. Que papo é esse? Que papo é esse? — Ela repetia.

— Não é que eu esteja…

— Você tá reclamando? — interrompeu-me novamente.

— NÃO! NÃO É uma reclamação. É que…

— É uma reclamação. É sim. Eu te conheço. Vejo pelo seu tom de voz e as olheiras. Sim. Você não está dando conta do recado. Eu preciso arrumar outro homem é isso? Eu preciso de um homem de verdade? Que tipo de negão é você?

— Veja bem, baby, tu já ouviu falar do ditado: tudo em excesso é ruim?

— Isso não é um ditado e você é um arregão!

— Quê!?

— É isso mesmo! O que foi? Tá com outra? Eu sabia que você estava comendo alguém por fora. Por isso não me procura mais e agora vem com esse papinho.

— Sim, cara. Eu tô comendo outra. Só que a outra é você! Quer dizer, não é você. É alguma coisa EM você. Entende? Eu não tenho culpa se você não lembra. O que tenho que fazer? Filmar a gente metendo? Se for o caso, eu gravo!

— É! Seria bom. Grave! Grave essa caralha e me mostre. GRAVE BEM! Porque se te cansa tanto assim quanto você diz, muito em breve você só terá esse vídeo pra se masturbar!

Jennifer se ergueu, entrou no escritório e trancou a porta.

— VOU TRABALHAR! — Gritou de lá.

Troquei olhares com Rubens. Ele baixou as orelhas e voltou a ração. Eu terminei o café e subi. Arrumei o quarto, liguei o notebook e dei início ao meu dia. Paramos para o almoço, porém ela não disse uma só palavra. O mesmo durante o café da tarde e no início da noite. As 20hrs tomei um banho, deitei na cama e assisti TV. Por volta das 22:50min, Jennifer desceu ao porão para dar início aos seus rituais. Aguardei quarenta minutos. Respirei fundo e caminhei até o guarda roupa, peguei uma velha câmera digital e pus nela um cartão de memória de 32 GB. Posicionei a câmera ao lado do espelho, liguei o modo noturno e esperei deitado. Após algum tempo, ouvi o som dos passos dela, ou sabe-se lá do que estava nela, subindo as escadas. Jennifer adentrou no quarto de olhos fechados, nua, descabelada e bufando. Escorria saliva no canto de sua boca. Ela veio e parou na minha direção. Encarei-a com vontade. Ela sentou ao meu lado. Dei uma boa olhada pra câmera. Estava no esquema. Então aguardei a coisa toda começar.

— Acha mesmo que pode me enganar, mortal? — berrou Jennifer. Com uma voz grave. Morta. Rouca. Multiplicada.

Congelei. Em seguida, tentei me afastar da cama vagarosamente, mas ela deu um tapa no colchão com tanta força que quebrou duas madeiras do estrado. Travei novamente.

— Mortais são seres tão… peculiares. Damos a eles o que eles mais buscam. Damos em abundância. Com todas as regalias possíveis, no entanto eles nunca – NUNCA! – estão satisfeitos.

— Quem é você? — indaguei.

— Tire a roupa!

— Não! Não até você sair! Deixe minha mulher em paz seu capeta tarado e… sujo e… homossexual e… promíscuo! Devolva a minha Jennifer!

— Ela nunca foi sua. Seu merda! Agora, tire a sua roupa! Hoje será a décima quinta noite! Ao término da copulação o rito estará findado e minha semente reinará sobre a terra. Ite! Ite! Mortal. Quitate la ropa ou farei contigo o que fiz com o gafanhoto hoje mais cedo.

— Então foi você? SEU CANALHA! Vou te dar o que você merece!

Tateei com uma das mãos em baixo da cama e peguei uma caixa de sapatos, tirei dela uma bota de couro. Pesada. Pontiaguda. E acertei a cara da possuída. Jennifer gritou tão alto que o espelho rachou. Saltei do colchão e corri até a cômoda. Peguei o inseticida que estava sobre ela e espirrei no rosto do capeta.

— SAI DE RETO DEMÔNIO! O SANGUE DE CRISTO ELIMINE VOCÊ, COISA RUIM! — Bradava. Dentre outras coisas.

Ela continuou berrando e chorando até a voz rouca desaparecer e dar lugar ao timbre fino e inocente da minha garota. Meio veneno havia sido expelido. Seu rosto estava completamente branco. Eu a peguei pelo colo e levei até o banheiro. Tirei o excesso do químico, mas ela ficou sem enxergar por cinco horas. No dia seguinte mostrei a ela o vídeo e fizemos um acordo de nunca mais tocarmos no assunto. Posteriormente ela foi ao médico com a desculpa de que o inseticida acidentalmente estourou no seu rosto. Fizeram alguns exames e recomendaram um antialérgico, no entanto, estranhamente, ela não teve sintomas muito graves.

Os dias se passaram e continuávamos trancados na mesma casa, graças a quarentena. Jennifer parou com os rituais. Começou a assistir cultos evangélicos por Lives no Youtube e nunca mais foi possuída. Três semanas depois, os Correios entregaram uma bota nova e uma espingarda de pressão que comprei pela internet. Com ela em mãos, subi ao telhado e matei o corvo. Apenas por precaução…

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