C’est la vie


Oi? Você ainda está ai?

Sim está, vivo em algum lugar dentro de mim. Hoje uma mulher me trouxe flores, hoje um homem me veio com conselhos, mas eu só bati a porta do carro e desci enquanto o motorista ainda me apresentava o seu chinês. Subi as escadas avulsas, por um momento me esqueci de contar os degraus. O elevador levou-me até o último andar, a vista era linda, mas tive pouco tempo de apreciar.

Seria ele? Barba lisa, branco avermelhado, meio careca sentado sozinho no centro. Aproximei-me e ao chegar, arrastei a mão sobre a mesa, ele se levantou e me abraçou sussurrando meu apelido. Nada falha. Nos seus dedos os dois anéis: o preto, o com a pedra vermelha que herdou do seu avô.

Sentei-me. A música que tocava no ambiente chegava ao fim: “I need you, baby…”, era a minha música preferida, antes de ser a música preferida de todo mundo.

Há um quarto escuro dentro de mim. Um cubo que retém todo tipo de escuridão. Algo que eu não ouso abrir, mas que pela sua própria força sai para fora, e então as palavras de alguma forma conseguem subir do coração a traqueia e de lá para a laringe, a faringe e eu as digo. Só as vezes eu consigo prender as palavras, engoli-las e fazer com que caiam no meu estômago e ao invés de aves rapinas, sejam borboletas.

Eu sei jogar baixo, sem fazer acontecer, mas para isso tenho que gastar sangue, tenho que ter sangue, mas eu estou anêmica por dentro, por fora e em todos os ângulos que se pode entender um ser, uma pessoa.

Era na orelha esquerda que ele tinha um piercing, eu achei bonito especificamente nele.  Também tinha a pele meio que aperolada de um jeito que se avermelhava vez ou outra, e pelos movimentos das mãos ele era tímido.

Por fim, tirou o anel do dedo, e passou as mãos na barba. Quando olhou para o lado o sol refletiu a cor do seu cabelo meio ruivo, meio loiro dourado. O anel então estava em meu dedo ainda que um pouco bambo. Disse-me que era para eu não esquece-lo, e esse foi o seu pecado porque como eu bem sabia nunca mais  o veria.

Então eu desci as escadas sozinha, e da mesma forma cheguei em casa. Tirei o vestido de bolinhas na sala e o deixei no sofá. Eu comi um pedaço do bolo de chocolate que ganhei pelos meus 22. E o anel do italiano… eu joguei no lixo.

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