A casa

Paredes alaranjadas, teto cinza, janela cinza. Acima da estante o único furo na parede, a tentativa falha de colocar ali aquele quadro que achei nas caixas da última mudança, a quem pertencia, que história traz eu não sei. A vela acesa sobre a mesa. Tento alinhar as ideias, mas o papel da máquina de escrever acabou. Reviro as gavetas, não encontro. Desisto. As palavras já foram agora.


Abro a janela, ar frio entra casa adentro, a vela apaga. Foi assim de súbito que também você apagou. Deixou a janela aberta e um vento frio repentino apagou sua voz, sorriso, olhos. Te deixou pálida, gélida. Aquele vento frio daquela tarde de quarta-feira, eu ainda me lembro. Janelas abertas e você apagando igual a vela aqui posta sobre a mesa nesse instante. Se ao menos eu tivesse fechado as janelas, tivesse tentando aquecer seu corpo, alma. Como a gente salva alguém da morte? Até hoje não sei. Fechar as janelas é suficiente?


Se eu tivesse ao menos tentado, mas você insistiu queria ver o céu, o sol. Se eu tivesse te contrariado. Tivesse fechado as janelas, tivesse ao menos tentado. A sua voz ainda ecoa “abre as janelas, não gosto do abafado dessa casa, esse teto cinza, queria um teto céu”. Se eu tivesse fechado as janelas, impedido o vento de entrar, tivesse ao menos te convencido de que o teto cinza, a janela cinza manteriam a vela acesa sobre a mesa. Se eu tivesse tentado. Tivesse ao menos te convencido, talvez até desobedecido. Como é que a gente salva alguém da morte? Vou deixar a janela fechada agora. A janela fechada basta? Não, as fendas ainda permitem o vento adentrar a casa.

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